OS MESTRES
Para conceber a existência dos mestres, é preciso recordar as etapas percorridas pela consciência humana. O homem é habitado por uma intenção diretora: esse Eu superior é a verdade no homem; trata se de um companheiro indestrutível que pode, agora mesmo, durante a vida terrestre, deixar por alguns instantes seu invólucro físico. Esse Eu superior é o próprio homem.
Na transição, o homem se torna sua própria história, e a integra ao sentido do universo. É então que compreende que sua existência na Terra foi uma prova para a sua evolução; a terra é um laboratório onde se prepara, nas provações, a promoção do homem; sua progressão é continua e ritmada alternadamente pelos estados impropriamente chamados vida e morte. Mas para onde progride o homem?
Mestre é um termo empregado para designar os seres que concluíram sua evolução humana e se tornaram entidades livres, libertas das prisões do visível e dotadas do saber superior. Naturalmente, é lícito ao homem contestar a existência desses mestres e se limitar à sua condição de homem. O invisível, porém, não se revela senão àqueles que queiram se abrir a ele. Aquele que, na Terra, harmoniza incessantemente seus pensamentos e seus atos que com os mestres, assume sua vibração e torna-se permeável à direção dos mesmos; sente que é guiado por eles nos eventos que balizam sua vida. Os mestres lhe concedem adiantadamente, ainda na Terra, um lampejo de sua eternidade.
A concepção da evolução, que significa uma expansão gradual da consciência, fundamenta o conceito da condição de mestre. O grau de aperfeiçoamento que sugere há de ser alcançado por todo ser humano e, certamente, este grau de aperfeiçoamento não pode ser conseguido durante uma breve vida humana. As diferenças entre um homem e outro , entre o gênio e o beócio, entre o santo e o criminoso, só são reconciliáveis com a justiça divina se cada ser humano estiver progredindo e estas diferenças forem apenas sinais dos diferentes estágios desse progresso. Nos estágios mais elevados de tão longa evolução encontram-se os mestres, e neles o exemplo dos mais altos resultados atingíveis por um homem desenvolvido moral, mental e espiritualmente.
Os mestres ajudam de inúmeras maneiras o progresso da humanidade. Dos planos mais elevados irradiam suas influências, e estas podem ser absorvidas e assimiladas tão livremente quanto a luz do Sol por todos aqueles que sejam o suficientemente receptivos para recebê-las.
São os mestres, estas entidades livres, que servem de canal à energia primeira para a direção da vida no mundo espiritual. A seguir, os mestres, os particularmente ligados às religiões, utilizam-nas como depósitos onde despejam a energia espiritual a ser distribuída aos "fiéis" de cada uma delas. Depois vem o trabalho intelectual, durante o qual os mestres emitem modelos de pensamento de alto valor para serem captados pelos homens de vocação, que terão que assimilá-los e divulgá-los ao mundo. Nesta fase, manifestam também seus desejos a seus discípulos, notificando-os sobre as tarefas que devem realizar.
No mundo material, eles fazem a vigia de possíveis acontecimentos, a correção e neutralização, até onde a lei o permite, das tendências do mal, o equilíbrio constante das forças que trabalham a favor e contra a evolução, o fortalecimento do bem e o enfraquecimento do mal. Estas são apenas algumas das atividades incessantemente levadas adiante pelas entidades espirituais que denominamos mestres.
O binômio saber/poder é a marca dos mestres. De nosso lado, saber/poder decorre do alinhamento de nossas forças interiores às de nossos mestres individuais. A força vem de cima e sem esse alinhamento ela não se manifesta em nós. Ora, se "como é em cima, é embaixo", o mesmo princípio se aplica àqueles que, do nosso ponto de vista, são os mestres. O saber/poder deles também se manifesta pelo alinhamento de suas forças a uma instância a eles superior.
Podemos encará-los como seres que, por seus próprios esforços, alcançaram o direito/dever de co-administradores da Criação. E isso conseguiram por aprenderem a se auto-administrar neste complexo jogo de forças que constitui a vida. Possivelmente haverá ocasiões em que precisarão decidir, recorrendo à orientação da instância superior, os rumos que deve tomar o que se encontra sob sua responsabilidade, se algo fora de suas próprias experiências passa a ocorrer. Serão passíveis de erro?
A maestria não uma condição em que os dignos do título de mestre detenham todos os conhecimentos e poderes do escalão em que se encontram; detêm, isto sim, os conhecimentos e poderes dos escalões inferiores. Quando um deles detém todo o saber e o poder do plano em que se encontra, ele passará, certamente, para um plano superior, onde a aprendizagem de um novo saber e um novo poder dará continuidade ao seu constante aperfeiçoamento. Os mestres não são, portanto, totalmente infalíveis ou falíveis, bons ou maus, perfeitos ou imperfeitos - adjetivos que tão-somente fazem denotar os dois extremos de uma escala comparativa.
Aos mestres atribuímos qualidades que ainda não conquistamos e a ausência dos defeitos que ainda possuímos. Há verdade em os considerarmos assim. Entretanto, nessa consideração deformamos a realidade e vemo-los com a lupa da compreensão humana; enxergamo-los como a criança que vê no adulto um semideus que tudo sabe e tudo pode. Ao contrário do que se costuma pensar, tais seres não são nem oniscientes nem onipotentes. Não são oniscientes porque a parte não pode abranger o Todo; não são onipotentes porque isso implicaria poderem eles até mesmo desviar o curso da Criação.
Essa constatação pode fazer ruir os sonhos de muitas pessoas, mas a verdade - e cremos que o que estamos dizendo é uma de suas expressões - é preferível à ilusão, porque só com ela o adulto pode e1aborar sua criança em bases mais sólidas, preparando-se para o que dele se espera para mais tarde.
A perfeição, um estado a que nada mais se possa aspirar, uma condição de absoluta completude, é uma abstração humana. É uma relatividade escalonada, cujo único ponto visível é o de partida, não o de chegada. É uma hierarquização que só não é total e completamente arbitrária porque os critérios de que nos servimos para avaliá-la baseiam-se em graus menores de perfeição. Quaisquer que sejam os padrões pelos quais a julguemos, sempre estaremos enxergando-a com a lente do discernimento humano. Não existe um estado assim, porque indicaria ele a impossibilidade de qualquer novo progresso, uma condição estática em que não mais haveria movimento algum, um término, enfim, em que tudo estaria em absoluto equilíbrio. E mesmo que houvesse uma tal perfeição, ela não seria desejável porque, em última instância, denotaria uma coisa só: estagnação.
Qual de nós desejaria ter, como mestre, uma entidade espiritual estagnada ?
Se a marca da entidade livre é saber/poder - e não perfeição -, seu empenho é serviço, ação, porque os primeiros só se justificam como instrumentos do segundo. 0 serviço à humanidade, essa ação das entidades livres que comentamos atrás, é a expressão mais cristalina do que é chamado de amor. É o amor que tudo dá e nada pede em troca; o que vê em cada homem a centelha divina, ainda que velada; o que não possui discriminação de qualquer espécie; o que está sempre pronto a orientar, a ajudar, a amparar, a curar, a amar.
O que nos cabe, portanto, é sermos canais de manifestação deste saber/poder/amor.